comando verde
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Câmeras de vigilância registraram, na sexta-feira (28), a chegada de um grupo de seis homens armados ao Morro do Estado, na Região Central de Niterói. Nas imagens, os suspeitos descem de dois veículos na Rua Doutor Araújo Pimenta e seguem pelas escadarias em direção à comunidade, por volta de 0h29.
Segundo as primeiras informações, os invasores seriam ligados ao Terceiro Comando Puro (TCP) e teriam como alvo uma área dominada pelo Comando Vermelho (CV), indicando uma possível tentativa de tomada de território.
Moradores do Ingá relataram ter ouvido diversos disparos durante a madrugada. Apesar disso, o comandante do 12º BPM, coronel Leonardo Oliveira, afirmou que não houve confirmação oficial dos tiros. "Recebemos denúncia de tiros, mas não constatamos nada até o momento", disse o oficial.
A Polícia Civil analisa imagens para identificar o veículo, sua rota e os integrantes do grupo. Os agentes buscam outras câmeras da região que possam ajudar a rastrear a movimentação dos criminosos antes e depois da ação.
Episódio ocorre após conflitos no Fonseca e Preventório
A movimentação criminosa acontece quatro dias após a Polícia Militar realizar operação no Fonseca, após denúncias de tentativas de invasão de comunidades por criminosos do TCP. Segundo Leonardo de Oliveira, após receberem informações sobre homens armados na Comunidade da Palmeira, agentes iniciaram monitoramento e acionaram o Grupamento de Ações Táticas (GAT).
Os PMs foram recebidos a tiros, dando início a um confronto. Dois suspeitos foram presos. De acordo com a PM, eles migraram de Irajá, no Rio de janeiro. A dupla estavam com dois fuzis, munições e granadas.
A operação se estendeu por outras comunidades consideradas estratégicas. “Estamos com a região ocupada”, afirmou o coronel, reforçando que as equipes permanecem nos acessos para evitar avanços de facções rivais.

Na madrugada de terça-feira (24), o Morro do Preventório, em Charitas, amanheceu ocupado pelo 12º BPM, que buscava conter a atuação de traficantes, localizar barricadas, cumprir mandados e identificar veículos roubados.
A ação foi desencadeada após relatos de intensa troca de tiros durante a noite anterior. Segundo moradores, criminosos do TCP teriam tentado invadir o Preventório, gerando pânico e obrigando famílias a permanecerem dentro de casa até que os confrontos cessassem. Ainda na noite dos confrontos, um homem, atingido por tiros, foi encontrado sem vida.
O Jornal A Tribuna conversou com o advogado criminalista e especialista em Segurança Pública Marcos Espínola, que analisou a ofensiva do TCP e o atual cenário do crime organizado na cidade. Segundo ele, a disputa vista em Niterói reflete um movimento mais amplo no estado:
“Quando a polícia enfraquece uma facção, outra tende a avançar. Essa é a dinâmica do crime organizado. O Comando Vermelho tem sido alvo de operações recentes; naturalmente, o TCP e até milícias passam a ocupar espaços deixados”, afirmou.
Espínola explica que o Rio vive um período em que o crime deixou de se concentrar apenas no varejo de drogas e passou a operar a partir de domínio territorial, o que intensifica conflitos:
“Acabou aquela ideia de que o criminoso saía rapidamente da comunidade para praticar roubos. Hoje a lógica é territorial. Quem domina o território domina a economia criminal — drogas, extorsões, serviços clandestinos, circulação de moradores”.

Lideranças seguem atuando de dentro das cadeias
O especialista destaca que o sistema prisional fluminense permanece como um dos principais motores de reorganização das facções.
“Muita gente acredita que quem está preso no Complexo de Gericinó está neutralizado. Isso não é verdade. As lideranças seguem comandando as ações de dentro das cadeias. Criminosos são arregimentados quando chegam, e quando saem, precisam continuar servindo às facções, porque voltam justamente para territórios dominados por elas.”
Para ele, retirar lideranças do convívio com a base — inclusive com maior uso de presídios federais — seria um passo importante, mas insuficiente sem mudanças estruturais.
Espínola defende reformas profundas: “Prendemos o mesmo criminoso 10, 20, 30 vezes. Isso mostra que o sistema não ressocializa. Hoje, a prisão serve para escolarizar ainda mais o sujeito no crime. Precisamos de trabalho, cursos profissionalizantes, apoio psicológico, condições dignas dentro das unidades. Isso não é proteger bandido: é evitar que ele volte pior. A lógica é simples: ressocializar para reduzir reincidência.”

Estado ausente e domínio armado presente
Espínola reforça que o domínio territorial das facções impede o funcionamento básico do Estado: “Quando o criminoso controla o território, ele cobra taxa, impede ambulância de entrar, impede comércio de funcionar e moradores de circular. As pessoas não conseguem nem chamar a polícia sem represália. É uma realidade gravíssima.”
Para o especialista, a solução passa por uma ação combinada: “Não é só polícia. É educação, saúde, emprego, presença do Estado. Quando todos os serviços entram na comunidade, a facção perde força. É assim que se derruba índices de criminalidade.”
Ele encerra com um alerta: “A disputa de território no Rio não vai acabar tão cedo. Mas não é impossível reduzir. Com Estado presente, políticas públicas contínuas e sistema prisional que funcione, a realidade pode mudar.”
